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Presidente Michele

Martha Medeiros

Se em 1993, quando eu morava em Santiago, alguém me dissesse que em pouco mais de 10 anos o Chile teria uma presidente mulher, eu responderia em bom gauchês: bem capaz! A capital era avançada em vários aspectos, mas a emancipação feminina ainda estava atrasada em relação a países como o Brasil e a Argentina, pra comparar apenas com a vizinhança. Não havia muitas mulheres trabalhando em profissões liberais e era raro encontrar duas amigas dividindo uma mesa de restaurante, sem companhia masculina.

Se me dissessem que além de mulher – como se não fosse pecado suficiente – a nova presidente seria também separada, aí mesmo é que eu acharia que era piada. Na época, só havia três países no mundo que não permitiam o divórcio, e o Chile era um deles. Homens e mulheres chilenas que viam seu casamento naufragar só tinham uma opção: anulá-lo. Porém, a hipocrisia era tanta que casais que já haviam comemorado bodas de prata conseguiam a anulação através de fraudes primárias, como alegar erro no preenchimento dos proclamas – mesmo que o erro tivesse sido cometido, de propósito, 25 anos atrás, justamente para terem uma desculpa para a anulação, caso viessem a precisar.

Se, por fim, me dissessem que a futura presidente do Chile, além de mulher e separada, era agnóstica, aí eu consideraria meu interlocutor um delirante com necessidade urgente de internação. Separada e ainda por cima agnóstica, num país fervorosamente católico? Para se ter uma ideia, 10 anos atrás o governo chileno evitava falar em camisinha e recomendava abstenção, era praticamente uma filial do Vaticano. Além disso, em 1993 a cantora Madonna se apresentou no Rio e em Buenos Aires, e agendou um show para Santiago também, que a Igreja prontamente recomendou que não acontecesse, e não aconteceu. Se a Igreja apitava em eventos musicais, o que dizer sobre a escolha do futuro chefe da nação?

Porém, salve, salve, o Chile mudou. Se eu já nutria uma simpatia enorme por essa que considero minha segunda pátria, agora estou definitivamente orgulhosa. Livres de Pinochet, seguem avançando não só economicamente, mas também nos costumes, e avançando ligeiro, fazendo cada 10 anos valerem pelo dobro de tempo.

Ser mulher, separada, agnóstica não confere a Michele Bachelet nenhuma garantia de fazer um bom governo. Se fosse homem, casado e católico, tampouco. Não é isso que credencia um bom chefe de governo: ele pode ser pai de uma grande prole ou de ninguém, pode ser gay, tocar guitarra, ser metalúrgico ou empresário, nada disso interfere diretamente na sua gestão. Honestidade e competência ainda é o que faz um governante entrar para a história pela porta da frente, o resto é folclore.

De qualquer maneira, torço por esta mulher que, como ela mesmo diz, “possui todos os pecados capitais juntos” e que mesmo assim venceu os preconceitos de uma sociedade hiperconservadora. Agora é arregaçar as mangas do tailleur e mostrar a que veio. Vale o mesmo para Ellen Johnson Sirleaf, presidente da Libéria, e primeira mulher a assumir tal cargo na África.

Daqui a 10 anos, tem mais.


Domingo, 22 de janeiro de 2006.



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